É engraçado, como relendo o que escrevi há tantos anos, parece que tudo está congelado e estagnado.. nada mudou..
Ou melhor.. mudou.. somos mais velhos.. temos mais cabelos brancos.. umas rugas.. mais uns pedaços estilhaçados e prontamente colados no coração..
Mas o resto.. continua igual..
Continuo a deparar-me com tanta tristeza e injustiça de longe e de perto.. de uns que trouxe para perto e outros que nunca conheci…
Passamos (e ainda estamos a passar) por uma pandemia.. tanto medo.. doença, morte.. crueldade e pobreza.. e o que será que por aí vem.. o que aprendemos com isso?
Mas a maior pobreza que existe.. é a do amor.. temos tanto potencial para dar.. e estragamos tudo ao querer não mostrar, não distribuir.. não mostrar “fraqueza"..
Que receio é este? De perder? Só temos a ganhar.. sem plantar não se colhe.. mas podemos plantar com esperança de ver germinar.. se não germinar.. tudo bem.. mas não temos que tentar reverter, ou somente dar desamor e indiferença..
Mas que pobreza e fraqueza é esta?
Vejo-a e sinto-a em tantos lados.. em tanta gente que me faz tanta aflição.. e confusão!! Será só medo? Será que há culpa envolvida e por isso não sentem que merecem receber amor? Incapacidade?
Não percebo realmente o que leva a que alguém fuja e se albergue em silêncio, quem sabe sobre uma falsa desculpa de que é melhor assim para o outro.. mas não vejo mais do que egoísmo.. sim.. sei que damos o que conseguimos a cada momento e cada um dá o melhor que sabe.. mas.. será que é assim em todos os momentos?
Não acredito nisso.. acho que tantas vezes se dá essa desculpa só porque é o caminho mais fácil para quem ignora, ou quer ignorar o outro.. o que sente, o que sentiu e quer ficar dormente.. mas.. e a amizade? Onde está ela? Aquela que também se importa e interessa pelo bem estar do outro? Não é o silêncio que cura.. mas faz com que a cada dia que passe torne uma cicatriz mais profunda do que deveria.. mais lenta a cura dessa ferida.. mais estilhaços para colar..
não percebo.. só me resta aceitar.. colar o que quebrou.. porque também sei que a luz irradia por entre essas frestas de estilhaços.. que doutra forma, não podiam sair..
e claro.. não me deixar contaminar.. porque mais do que vírus.. este desamor é a verdadeira pandemia de todos os tempos.. é ela que contamina a vida e o coração de tantos.. ao ponto de que ainda assistimos a guerras, tanta desumanidade.. dentro da guerra ainda assistimos a racismo dos que por ela passam.. dos vizinhos.. não entendo!!
O sangue não é igual? Não temos todos a mesma constituição humana? Porquê? Porque ainda se olha ao aspeto, ao credo e à crença como meio diferenciador de mais ou menos merecimento?
Somos humanos.. todos temos exatamente as mesmas vulnerabilidades, as mesmas capacidades.. então.. por favor.. basta disto! Basta de guerras! De indiferença! De desamor! Basta! Já não basta tudo o que não podemos controlar de todo para nos roubar a paz, para ainda vermos e assistirmos e permitirmos que alguém comande a vida e decida sobre a vida de milhares de pessoas, movidos e providos só de vazio.. de desamor.. ganância.. intenções escondidas em patriotismo... corações frios, almas tristes..
quando é que todos vamos acordar e perceber que a vida toca-se e contagia-se de amor e de paz da mesma forma que se toca e contagia-se pelos piores motivos?
O que queremos para nós? Para os nossos filhos? Para os que amamos? Para os nossos amigos? Paremos de oferecer tão pouco, quando há tanto para dar! O mundo é de todos, o direito à vida, saúde, educação e amor também!
A pandemia do COVID levou-me a minha avó, não me permitiu despedir-me dela como ela merecia.. não me permitiu dizer-lhe o que queria.. estar presente.. de a ver pela última vez.. gostava tanto que tivesse sido tudo tão diferente! A verdade é que já sentia imensa falta dela ainda em vida.. a minha "menina avó”.. a minha 2a mãe.. que aos poucos se ia esquecendo do que ouviu ou perguntou há minutos atrás.. foi muito difícil ver o tempo passar e levar com ele a pessoa que eu conheci.. e aos poucos, numa despedida longa, sentir tantas saudades de alguém que ainda ali estava.. ainda que subterrada e condicionada pela condição humana e pela falta de acompanhamento apropriado como acho que seria digno de ter, e que acredito que fizesse toda a diferença..
Fiquei mais pobre nesse dia..
Mas ao longo de toda a minha existência a pandemia do desamor tem sido constante.. na minha vida.. na dos que me rodeiam e no mundo.. e com ela já tanta boa gente foi levada das nossas vidas.. da mesma forma.. cruel.. sem aviso, fria.. esta pandemia, todos e cada um podem controlar.. trabalhar.. e criar um mundo melhor.. será tão difícil assim?